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Reduzindo o volume

Gabriel Padovesi, CFP® integra a equipe de Recomendação de Investimentos no Itaú Unibanco.

Há pouco tempo, o americano Alex Kearns tirou a própria vida acreditando ter um saldo negativo de US$ 730 mil no aplicativo Robinhood. Uma tragédia que reforçou o debate sobre as consequências do daytrade.

Há inúmeros cursos online ensinando a ficar milionário com essa técnica, mas um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) demonstrou que, além de ser difícil persistir na prática (92% de quem começou a fazer minicontratos de índice ou de dólar entre 2013 e 2015 desistiram), ela é pouco rentável. De 1.558 pessoas que operaram por mais de 300 pregões, apenas13 (menos de 1%), conseguiram lucro médio diário acima de R$ 300, enquanto 91% tiveram prejuízo.

O ruído é um dos fatores que faz o daytrade ser tão difícil. E há dois tipos de ruídos distintos, que se complementam e potencializam. Ruído é tudo aquilo que interfere na transmissão de uma informação de um emissor para um receptor, enquanto o relevante é denominado sinal.

No mercado financeiro, há uma infinidade de dados gerados por milhares de agentes (preços, indicadores, projeções, análises, opiniões...) que será irrelevante no longo prazo, mas se sobrepõe no dia a dia, formando a chamada volatilidade. O excesso de informações torna a probabilidade de ganhos em uma hora, ou mesmo em um dia, similar à de jogar cara ou coroa, cerca de 50%. Isso traz o problema central: a ausência de feedbacks confiáveis. É impossível aprender em um ambiente em que repetir uma atitude gera sucessos e fracassos na mesma proporção.

Aqueles investidores que persistiram no daytrade certamente terão uma opinião sobre a sua competência, mas a simples aleatoriedade prevê que, se tivermos uma amostra significativa, haverá pontos fora da curva. Jogue a moeda infinitas vezes e você encontrará sequências inacreditáveis em que apenas uma das faces se sobressaiu. E nenhuma delas dirá a respeito da competência do lançador.

Circunstâncias em que o resultado de uma decisão demora a ser apreendido levam ao segundo tipo de ruído. Esse é o caso de profissões como Medicina Diagnóstica e Gestão de Projetos.

O ruído é um mal moderno. Contra ele, reduza o volume.

No artigo Noise: How to overcome the high, hidden cost of inconsistent decision making, Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel, e outros pesquisadores expõem uma divergência média de 71% quando um único desenvolvedor de software é requisitado a fazer uma estimativa de horas para o mesmo projeto em dois dias diferentes. Mais assustador: dois patologistas têm uma alta divergência sobre a mesma biópsia de uma doença potencialmente grave (a correlação é de apenas .61, enquanto o ideal seria 1.0).

Sem um processo padronizado e claro até pares altamente especializados divergem. Nós mesmos contradizemos nossas opiniões prévias. Para os cientistas comportamentais, o ruído é essa inconsistência aleatória na tomada de decisão. Há, sim, contextos que propiciam o desenvolvimento da chamada intuição de especialista. Mas, para isso, os eventos precisam ser regulares, observáveis e terem feedback imediato, como no xadrez. É por isso que dois mestres tendem a ter percepções similares sobre o estado de uma partida.

Quanto ao mercado financeiro, qualquer expectativa de regularidade apenas prenuncia o próximo sobressalto. A observação pode ser completamente turvada por ruídos e a aleatoriedade torna o feedback não confiável.

A gestora AQR Capital Management até tentou criar uma inteligência artificial que identificasse o ruído do mercado financeiro. Porém, enquanto um algoritmo de reconhecimento de imagem consegue identificar um gato com assertividade de quase 100% na Bolsa de Valores (o que significa que o sinal, a imagem do gato, consegue se sobressair ao ruído), “a razão entre sinal e ruído não é apenas fraca, mas será sempre puxada para o zero”, de acordo com artigo Can Machines “Learn” Finance?

O paradoxal é que, para um trader, o sinal tem pouco valor, pois tende a direcionar imediatamente as cotações a um novo preço justo, esvaindo rapidamente a oportunidade de ganho. Por outro lado, o ruído é constante e dá o tom do mercado, alimentando os movimentos especulativos.

Então, se o problema é o ruído, uma boa estratégia é reduzir o volume.

Reduzindo o volume dos investimentos, aumenta-se a diversificação, especialmente se essas aplicações forem recorrentes e disciplinadas. Foi o que demonstraram Jurandir Macedo e Martin Iglesias com dados da Bovespa de 1968 a 2010, concluindo que a melhor estratégia seria a de aportes mensais por 16 anos e retiradas mensais durante os 8 anos seguintes.

Essa estratégia teria retorno médio de 14,46% a.a. e volatilidade de 3,17%, enquanto um aporte único com retirada 10 anos depois teria retorno médio de 11,01% e volatilidade de 9,18%, ou seja, uma probabilidade muito maior de retornos inferiores ou, até mesmo, negativos. Além disso, reduzindo o volume consumido de notícias ficamos menos reativos às informações irrelevantes. Diminuir o volume de consultas à posição de investimentos evita a ansiedade para fazer realocações.

O ruído é um mal moderno. Contra ele, reduza o volume.

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