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A dupla face do maior cisne negro da década

“Cisne negro” foi um termo criado em 2007 pelo autor Nassim Taleb para descrever um evento imprevisível, de ocorrência rara, cujo impacto, de grande dimensão, é quase impossível pré-dimensionar.

Esse tipo de evento, totalmente inesperado, interfere diretamente na rotina de negócios e instituições e não se sabe, antes que ele aconteça, quanto tempo irá durar e quais consequências irá acarretar.

Geram, portanto, um cenário de imensa incerteza entre os agentes econômicos, provocando por parte deles uma reação de fuga (fligh to quality) de suas posições em ativos e mercados de risco para ativos mais seguros atrelados a uma moeda forte e estável.

Vários eventos são citados historicamente como “cisnes negros” dentre os quais: o “11 de setembro”, a epidemia de Ebola, a greve dos caminhoneiros, dentre outros.

Contudo, a pandemia do novo coronavírus, iniciada em dezembro de 2019, vem se revelando como o mais crítico cisne negro da última década.

No início, o mundo subestimou o novo vírus tratando-o como uma gripe comum e isolada na China, mas, a globalização mundial, sobretudo o nível de integração física que ela é capaz de propiciar, mostrou a capacidade de disseminação exponencial do problema, assim como seu impacto destrutivo na economia global.

Na seara dos investimentos, a pandemia provocou quedas repetidas nas bolsas de valores mundiais, com impacto ainda maior no mercado interno, em sendo o Brasil um país emergente. Isso sem contar a abertura das curvas de juros, sobretudo na ponta mais longa, trazendo ainda a pressão sobre o BACEN para prosseguir com o ciclo de corte de juros, que já tinha sido dado praticamente como encerrado.

Com a SELIC no seu menor patamar (e com boas chances de sofrer novos cortes), dólar batendo recordes consecutivos, papéis prefixados e de inflação marcados a mercado com deságio, renda variável, multimercados e fundos imobiliários contabilizando perdas, fica a grande pergunta para o investidor: o que fazer? Encarar o momento como oportunidade ou ficar totalmente fora do risco, mesmo que isso represente um juro real zero ou negativo este ano?

Diante deste impasse, não há uma receita pronta para todos os investidores.

O primeiro ponto é checar se o investidor já se encontra posicionado e não sabe o que fazer com sua parcela de risco na carteira. Se ele já está comprado dentro de limites confortáveis, o melhor agora é manter as posições e aproveitar oportunidades que se abriram nos spreads da renda fixa e até mesmo na renda variável, já que vários papéis estão sendo vendidos abaixo do seu valor patrimonial. Importante ressaltar que a adição de risco a carteira só é recomendada se o perfil do investidor a comporta e se ele possui uma reserva de emergência que lhe garanta a não necessidade de dispor desses recursos no curto e médio prazo.

Caso tenha descoberto que está acima do padrão de risco que está disposto a ter, aí sim vale a pena avaliar uma redução na exposição a risco e um rebalanceamento da carteira, com aumento do pós-fixado ou até em pré ou inflação curta que possam ser levados a vencimento (neste momento de alta aversão a risco a compra por proteção em geral é inviabilizada pelo alto custo – assim como um seguro, o hedge deve ser feito sempre em momentos de maior otimismo, quando a compra por proteção representa um bom custo/benefício).

Uma situação distinta é a do investidor que não está posicionado ou está subposicionado em risco diante do seu perfil de investimento. Quem está nessa situação tem bastante oportunidade de alavancar seus ganhos, já que terá bons descontos na compra de papéis e títulos nesse momento. Contudo, isso deve ser feito de forma gradual e embasada tecnicamente, de modo a formar preços médios interessantes, sobretudo em setores mais resilientes, aproveitando-se de possíveis novas quedas e maiores aberturas na curva de juros.

Não podemos desprezar ainda a importância de uma diversificação de mercados, já que o ritmo de recuperação das bolsas dos países emergentes pode não ser o mesmo da bolsa americana, ancorada numa economia e moeda mais fortes.

De todo modo, em ambos os casos, algumas observações adicionais são importantes:


1)

O investidor nunca deve se expor além do recomendado ante a sua tolerância ao risco de mercado. O fato da taxa SELIC ser a mais baixa da história deste país não pode ser o gatilho para entrada em ativos mais arriscados, quando o suitability revela um perfil averso a perdas ou focado no curto prazo.Escolher onde investir levando em consideração impactos sociais ou ambientes positivos, em conjunto com retorno financeiro, também é conhecido como Investimento de Impacto. O objetivo desse tipo de investimento é fornecer capital para resolver os desafios mais prementes do mundo e, ao mesmo tempo, criar riqueza para os investidores. O relatório de abril de 2019 da Rede Global de Investimentos de Impacto (GIIN) afirma que existem mais de 1.340 organizações gerenciando US$ 502 bilhões em investimentos de impacto globalmente.



2)

O investimento em uma única classe de ativos ou, o que é ainda pior, em um único ativo pode acarretar danos irreparáveis diante de um cisne negro, já que, a depender do impacto sofrido, ativos podem virar pó ou se desvalorizarem sobremaneira em um curto espaço de tempo.



3)

Operações mais arrojadas, sobretudo em bolsa de valores e derivativos não devem ser feitos sem acompanhamento técnico por clientes que não têm conhecimento de mercado (o resultado pode ser a perda integral do patrimônio).



4)

Atitudes de realocações e modificações no portfólio tomadas por impulso ou ansiedade podem acarretar danos irreversíveis. O ideal é que o investidor ouça um profissional de mercado e avalie os riscos e consequências de sua permanência nas aplicações antes de optar por se desfazer de um ativo.

Quando o coronavírus passar (porque ele vai passar) precisamos nos lembrar desse momento como a grande oportunidade da década e não como a principal causa de dilapidação patrimonial da história.

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