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ENTREVISTA - PLANEJADORES LOCAIS
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Copilotos das finanças

Leanderson Reis, CFP®, fundador e diretor de finanças pessoais da GFAI
Valter Police, CFP®, diretor da Academia FIDUC

Com a crise, os planejadores financeiros do mercado local têm um caminho de oportunidades e a chance de mostrar que são essenciais na vida das pessoas e das empresas

A incerteza geralmente causada por crises econômicas ganhou, durante esta pandemia do coronavírus, um agravante: o estresse com a ameaça à saúde das pessoas, bem como de suas famílias, e o risco iminente de morte. Por isso, assim como os profissionais da saúde têm a nobre missão de estarem na linha de frente deste enfrentamento para cuidar da população, os planejadores financeiros também têm o papel de oferecer a tranquilidade necessária para que todos atravessem o período sem estresse financeiro. E a saúde das finanças tem tudo a ver com qualidade de vida, principalmente em meio a circunstâncias desafiadoras.

“A pessoa fica doente e a primeira coisa que faz é procurar um médico. Com o planejador financeiro acontece o mesmo”, explica Leanderson Reis, fundador e diretor de finanças pessoais da GFAI. Ele diz que, nestes momentos, o cliente procura o profissional para recalcular a rota financeira, ser uma bússola, um waze, rever orçamento e ajudar nas tomadas de decisões. Reis acredita que este “boom” na procura por consultoria financeira deve continuar até o próximo ano. “Nós, planejadores financeiros, temos privilégios na pandemia e pós-pandemia, primeiro por sermos um serviço essencial já que todo mundo descobriu a importância de uma reserva de segurança e de pensar nas finanças pessoais e, segundo, por podermos trabalhar remotamente”, afirma.

Reis reitera que, infelizmente, esta descoberta veio pelo mal, durante uma crise. No entanto, os planejadores podem começar a utilizar esta consciência para o bem. “Em vários outros países, a educação financeira é obrigatória no ensino básico”, lembra citando os Tigres Asiáticos que cresceram muito quando conseguiram impulsionar a educação financeira. “Mas o investimento é de longo prazo.  Algo que temos que plantar agora, para colher daqui a uma ou duas gerações”, explica.

“A pessoa fica doente e a primeira
coisa que faz é procurar um médico. Com o planejador financeiro acontece o mesmo”

A nossa geração terá uma percepção diferente sobre prioridades e gastos porque ficará marcada por esta experiência da pandemia da Covid-19. Na visão de Valter Police, diretor da Academia FIDUC, estas mudanças de atitude trarão a noção de que a diminuição de custos não significa redução de prazer. “Quando uma pessoa reduz sua fatura de cartão de crédito em 30%, ela percebe que sua vida não ficou 30% pior”, explica.  

Neste sentido, Police chama a atenção para o desafio de transformar a educação financeira em uma prática isenta, ou seja, sem conflitos de interesses. Para ele, o mercado financeiro brasileiro ainda está muito ligado a investimentos e focado na venda de produtos. “Creio que é possível avançarmos, tomando como base o modelo que já temos no exterior, que é trabalhar com investimentos, incluindo questões de planejamento financeiro, sem precisar vender produtos, colocando o interesse do cliente em primeiro lugar”, defende.

O modelo, conhecido como mercado fiduciário, é uma tendência natural nos Estados Unidos, Europa, Austrália e Japão, segundo Police. Para ele, o esperado de um planejador financeiro em momentos atípicos é a compreensão da necessidade de trabalhar mais, para ganhar menos e, sobretudo, estar ao lado do cliente. “Descobrimos bons profissionais em momentos ruins”, afirma. Além disso, o planejador não poderá mais falar apenas de investimentos. Ao invés disso, precisará entregar o pacote completo ao cliente “Desde investimentos, controle de finanças pessoais, gestão de risco e aposentadoria”.

Em relação às empresas, Police acredita em um movimento natural de redução dos espaços físicos e redirecionamento de recursos, priorizando os custos prioritários como, por exemplo, manter uma estrutura física, mas em um espaço menor. “Essa mudança também vai demandar investimento para uma estrutura de home office adequada”, alerta. Ele prevê que a automatização e a inteligência artificial devem ser fortes tendências no planejamento financeiro após a pandemia porque já existem extensas bases de dados e sistemas cada vez mais integrados no setor. “Isso vai possibilitar ao planejador financeiro dar uma visão mais abrangente ao cliente, tornando-se o copiloto de sua vida financeira. O próprio cliente vai pilotar o computador com as planilhas e dados técnicos de suas finanças”.

Na visão de Police, o planejador financeiro vai perceber que, embora os contatos pessoais retomem no pós-pandemia, será possível fazê-lo com menor frequência. O atendimento remoto como alternativa permitirá escalabilidade na prestação do serviço, com grande economia do tempo antes usado no descolamento para atendimentos. “No entanto, com esta facilidade, o profissional vai precisar de processos automatizados, tanto para o atendimento remoto, quanto para os processos junto aos clientes. E essas mudanças virão para ficar”.

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