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A racionalidade do investimento ESG

Eduardo Forestieri, CFP®. Certified Financial Planner desde 2010 - Membro do Conselho de Administração da Planejar e Coordenador Voluntário da Comissão de Educação.

Pensando em ESG(1), você se considera racional?

Em condições normais de temperatura e pressão, rezam teorias clássicas de finanças que toda decisão racional de investimento está baseada na possibilidade de se obter mais dinheiro de volta depois de um tempo de aplicação. Baseando-se no tripé Retorno, Tempo e Risco, quanto mais se exigir de um elemento, mais o investidor terá do outro (mais retorno exige mais risco, mais prazo ou mais dos dois).


É racional investir recurso próprio em busca de um retorno melhor que a média?

A resposta inicial é “sim”. Mas, se descermos a lupa, aprofundando para verificar se o valor foi para um investimento em atividade ilegal ou em algo que pode piorar o futuro da sociedade ou do planeta, será que podemos qualificar esse investimento como “racional”? Nesse paradoxo, o investidor pode ficar mais rico, porém terá um ambiente social mais fragilizado (refletindo insegurança, deslealdade, falta de crescimento). Torna-se pouco racional investir para ganhar sem se importar com princípios responsáveis de investimento.

Escolher onde investir levando em consideração impactos sociais ou ambientes positivos, em conjunto com retorno financeiro, também é conhecido como Investimento de Impacto. O objetivo desse tipo de investimento é fornecer capital para resolver os desafios mais prementes do mundo e, ao mesmo tempo, criar riqueza para os investidores. O relatório de abril de 2019 da Rede Global de Investimentos de Impacto (GIIN) afirma que existem mais de 1.340 organizações gerenciando US$ 502 bilhões em investimentos de impacto globalmente.

As novas gerações de Homo sapiens, além de digitalmente proficientes, têm maior consciência ambiental e social. Para esse público, não apenas as decisões de compra, mas também as de investimento levam em consideração os quesitos mencionados. A não adequação de produtos e portfólios a essa realidade pode fazer com que sejam preteridos. Será que as empresas e os planejadores financeiros estão preparados para essa mudança de perfil e padrão de consumo dos jovens millenials?

O investidor que não se sente confortável em transferir riqueza para determinados setores pode simplesmente excluí-los de seu portfólio. É notório o aumento do número daqueles que baseiam suas escolhas no respeito a aspectos da economia que promovam externalidade social ou ambiental positiva e, para isso, utilizam filtros ou exigem mais retorno do que não se enquadra nesses aspectos. Um grupo de 300 fundos mútuos globais que integram fatores ESG nas suas decisões de investimento atraiu US$ 21,4 bilhões em novas captações em 2019, quase quatro vezes mais que os US$ 5,4 bilhões do ano anterior.

As novas gerações de Homo sapiens, além de digitalmente proficientes, têm maior consciência ambiental e social.

Essa história não é tão recente quanto parece. O Investimento Responsável é uma filosofia que leva em conta questões ambientais, sociais e de governança (em inglês, a sigla ESG). Adeptos incorporam aspectos ESG às suas decisões para obter retornos mais ajustados ao risco de seus portfólios. Esse tipo de investimento, também conhecido pela sigla SRI (Sustainable & Responsible Investment), é praticado há décadas com diferentes abordagens, tendo ganhado impulso a partir de 2006 com o lançamento da PRI (Principles for Responsible Investments), uma rede global de mais de 2300 organizações signatárias apoiada pela ONU. No Brasil, há 64 organizações signatárias, sendo a maioria gestoras de recursos.

A adoção de práticas sustentáveis pode trazer mudanças estruturais nos modelos de negócios, o que pressupõe que os riscos e os retornos geralmente serão considerados em prazos mais longos em temas relacionados a investimento.

Olhando à frente, para cada moeda que você tem para investir em energia, quanto destinaria à energia fóssil e quanto à energia renovável? Esse montante é maior ou menor do que foi anos atrás? Além de favorável ao meio ambiente, portanto favorável ao mundo, a tecnologia hoje já permite um retorno do investimento em energia (EROI) fóssil – considerando extrato e refino – comparável ao da energia solar (de acordo com estudo da Universidade de Leeds publicado na Nature Energy em julho 2019). Em 2/3 do mundo, a energia eólica e a solar se tornaram as formas mais baratas de energia. A transição para uma matriz energética renovável tem potencial para reduzir as emissões de carbono, mas vem acontecendo em velocidades diferentes ao redor do mundo (o Reino Unido, por exemplo, já conseguiu mais energia de fontes renováveis do que de combustíveis fósseis pela primeira vez no 3º tri de 2019). Pensando que a energia eólica e a solar estão avançando não por causa de benfeitorias morais, mas porque podem ser a parte mais lucrativa dos negócios de energia na maior parte do mundo, de que lado investidor você está ou estará?

Ter mulheres no conselho de administração deve ser filtro para uma escolha de investimento? Em post recente, a Bloomberg divulgou que todas as empresas do índice S&P 500 hoje têm ao menos uma conselheira (no Brasil, são 70% das empresas do Ibovespa). O equilíbrio entre gêneros no conselho há muito é um foco dos investidores, mas o fator ganhou novo impulso quando saíram pesquisas mostrando que a diversidade de conselhos traz, sim, melhores resultados. Já há estudos que concluem que o PIB das economias avançadas poderia crescer 6% se buscassem igualdade de gênero no mercado de trabalho – um benefício econômico bastante real.

A adoção de práticas sustentáveis pode trazer mudanças estruturais nos modelos de negócios.

Sob o prisma de reguladores, também acontecem ações que reforçam a importância da análise de fatores ESG. A título de exemplo, alguns autorreguladores exigem que as seguradoras avaliem como mudanças climáticas podem afetar o valor das ações e dos títulos que detêm. Na mesma linha, prefeitos de cidades como Nova York e Londres anunciaram, em setembro de 2018, suas intenções de desinvestimento em empresas de combustível fóssil nas carteiras dos planos de pensão de suas metrópoles.

A recente pandemia demonstra a importância de outros fatores primordiais para os investidores de ESG, entre eles a preparação para desastres, o planejamento de continuidade e o tratamento dos funcionários por meio de benefícios adequados a esse tempo. A resposta corporativa à pandemia — por exemplo, a decisão de algumas montadoras de fabricar suprimentos médicos ou a de uma empresa de bebidas de fabricar álcool gel — sinaliza o papel que as empresas privadas desempenham no enfrentamento dos problemas sociais, tornando claro que as empresas são parte da solução.

O impacto da pandemia nos mercados é um lembrete de que os problemas ambientais e sociais são riscos financeiros que precisam ser gerenciados adequadamente. Resta saber se a pandemia aguça ou não o foco dos investidores nos fatores de ESG. No mínimo, será uma excelente oportunidade para fazer perguntas sobre as questões sociais que lhes importam.

A ideia deste texto, mais do que trazer respostas, é questionar:

Vale a pena investir em algo que comprometa o nosso futuro, mesmo que possa oferecer um retorno superior no presente?

Vale a pena transferir riqueza para algo que faça mal a você e à sociedade?

Você seria sócio de empresas cuja atividade tem um potencial destrutivo para o planeta onde vivemos hoje e onde viverá nosso legado?

Ou, voltando à pergunta do título, você se considera um bípede racional na escolha de seus investimentos?

1. ESG (do inglês Environmental, Social and Governance).

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