CFP®
Professional
Magazine

ROlE PARA LER
INVESTIMENTOS
TEMPO DE LEITURA
6 MIN.

Perspectivas para fundos quantitativos nos cenários doméstico
e internacional

Gustavo Linari Rodrigues, CFA. Gestor do fundo Claritas Quant.

Estratégias quantitativas são um assunto cada vez mais presente em conversas sobre investimentos, e não sem motivos. No Brasil, ainda representam uma parcela bem pequena dos ativos: se observarmos os fundos multimercado (em que a maioria dessas estratégias se encaixa), veremos que menos de 1% é dedicado a esse estilo. Enquanto isso, internacionalmente os fundos quant já se tornaram extremamente relevantes.

Uma pesquisa recente da Pension & Investments sobre as maiores gestoras de hedge fund do mundo aponta três casas quantitativas (AQR, Renaissance e Two Sigma) entre as cinco maiores. Além disso, em fevereiro de 2019 a Bloomberg apontou que, em 2018, quatro entre os 10 gestores mais bem pagos geriam estratégias quant, ou seja, se o Brasil seguir a tendência internacional esse grupo de fundos deve crescer muito nos próximos anos. Por isso é importante entendermos o que diferencia a gestão quantitativa da tradicional, qual é a oportunidade que ela oferece e qual o motivo de ter crescido tanto no mundo.

Mais do que um tipo de estratégia diferente, os quants representam uma mudança na metodologia de investimentos. Nesse sentido, o papel do gestor deixa de ser o de decidir em quais ativos investir e passa a ser decidir sobre modelos de investimento. Esses modelos, por sua vez, irão gerar os sinais de compra e venda para ativos específicos, que serão respeitados enquanto fizerem parte do fundo.

Para o universo das estratégias
quantitativas, o tratamento de
dados é a essência dos modelos.

Em outras palavras, o objetivo é retirar o fator humano da decisão final, evitando vieses e emoções que possam ter resultados negativos nas alocações. Claro que esse processo é dinâmico: se, ao longo do tempo, o gestor decidir que uma estratégia já não faz sentido, as decisões dela deixarão de ser seguidas, mas mais uma vez isso será feito em relação ao modelo e não em relação aos ativos individuais.

Nos últimos anos, vimos uma explosão de dados no mundo juntamente com a evolução no poder de processamento e nos algoritmos utilizados para tratar a informação. Para o universo das estratégias quantitativas, o tratamento de dados é a essência dos modelos, então essa evolução permitiu o desenvolvimento de um grande leque de novas estratégias e, por consequência, é um dos motivos para o crescimento dessa indústria no mundo.

Existe grande diferença nos tipos de estratégias que são empregadas pelos fundos. Elas vão desde as ideias mais simples, como arbitrar o preço de um ativo que negocia em duas bolsas diferentes, até as mais complexas, como a utilização de inteligência artificial para extrair sinais de dados não estruturados.

É verdade que uma parcela muito significativa de estratégias ainda foca informações bastante comuns – e que já eram disponíveis há décadas –, como preços de negociação e informações de balanço, mas pouco a pouco novas fontes de dados começam a ser exploradas, como por exemplo imagens de satélite, informações sobre o fluxo global de navios e mensagens postadas no Twitter.

A duração de cada investimento também muda muito com cada tipo de modelo, podendo ir de nanossegundos a meses – é comum pensar que fundos quant são sempre high-frequency, mas isso não é verdade.

Se, por um lado, a maior disponibilidade de dados e ferramentas de análise facilitou o surgimento de novos fundos quantitativos, por outro lado ela sozinha não seria suficiente para explicar a dimensão que esses fundos atingiram globalmente.

Para entender o crescimento, precisamos pensar também pelo lado da demanda dos investidores. Nesse aspecto, as estratégias quant, além de muitas vezes oferecerem um perfil de risco e retorno bastante atrativo, trazem um benefício adicional. A maioria delas apresenta baixa correlação com outros investimentos comuns nas carteiras de investidores – certamente a questão de seguirem um processo diferente daquele dos fundos discricionários tem papel nesse resultado.

Os fundos quantitativos devem
ganhar espaço no Brasil, pois
os fatores que os impulsionaram
no mundo também fazem
sentido aqui.

A correlação representa a tendência estatística de dois ativos terem performance semelhante. Isso é importante porque, se você investir em dois ativos com alta correlação, há uma grande chance de terem resultados ruins ao mesmo tempo, com consequências graves para seu portfólio. Por sua vez, se forem descorrelacionados, há mais chance de que, em momentos ruins para um, o outro esteja com boa performance, reduzindo o risco total da carteira por conta de uma melhor diversificação. Podemos contar com os fundos quantitativos ganhando espaço dentro do Brasil, uma vez que os fatores que impulsionaram o crescimento dessas estratégias no mundo também fazem sentido aqui.

Considerando a baixíssima alocação quant que os investidores locais possuem hoje, o benefício de diversificação é algo que não pode ser desconsiderado. Por empregarem um processo de investimentos diferente, a correlação desses fundos com investimentos tradicionais é baixa, e a carteira da maioria dos investidores poderia ter um benefício de diversificação adicionando uma parcela de fundos quantitativos.

Soma-se a isso o fato de que, neste ambiente de juros baixos, a classe é um dos investimentos que ainda tem o potencial de entregar um perfil de risco e retorno atrativo, e assim temos um cenário bastante otimista para os quant nos próximos anos.

CFP®
Professional
Magazine