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Como planejar a aposentadoria no cenário de juros reais baixos

Rejane Tamoto CFP®,.

A primeira resposta para essa pergunta tende a se tornar um mantra entre os profissionais do mercado financeiro: será necessário tomar mais riscos. E isso é natural, já que é a primeira vez que o Brasil experimenta um contexto econômico no qual os juros reais chegaram a um dígito com a perspectiva de continuidade no longo prazo.

No entanto, tomar riscos exige responder a outras perguntas quando o assunto é a acumulação de recursos para a aposentadoria.

Quanto risco tomar?

Ao estabelecer premissas – montante necessário para gerar a rendadesejada na aposentadoria, tempo para a acumulação e capacidade depoupança mensal –, o planejador nanceiro encontrará o retorno requerido para atingir esse objetivo e, logo, o risco correspondente. Nesse processo,no entanto, sempre será importante ajustar o retorno e o risco requeridosao suitability do cliente.


A diversificação entre as classes de ativos é essencial para o objetivo da independência financeira na aposentadoria.

Qual é exatamente o risco necessário?

A diversificação entre as classes de ativos é essencial para atingir o objetivo da independência financeira na aposentadoria. Além da renda variável e do investimento em ativos no exterior, é preciso estudar e ainda buscar especialistas em outras classes de ativos de melhor performance e risco. Nesse cenário, a tendência, de acordo com três painéis do Congresso Planejar 2019, é a busca por gestão profissional de fundos de private equity, de fundos imobiliários e dos que são formados por debêntures de infraestrutura.

Qual é a qualidade desse risco?

As classes de ativos altamente ligadas à economia real têm em comum a complexidade. É mandatório ter especialização para analisar a qualidade desses ativos e seus riscos, e acompanhá-los. O profissional CFP® que não é especialista em investimentos, tampouco nesses setores específicos, tem a missão de: a) buscar qualificação ou b) indicar especialistas nesses ativos aos clientes. Em muitos (se não na maioria) dos casos, o caminho a seguir é a terceirização da gestão dos ativos. Um exemplo de como isso ganha relevância no contexto de juros baixos é o dado de que 80% das famílias nos Estados Unidos com mais de US$ 10 milhões de patrimônio utilizam serviços de gestão independente e profissionalizada.

Saiba qual é o risco atual

É fundamental educar o cliente para a volatilidade que acompanha a tomada de riscos. Afinal, o brasileiro conviveu por muito tempo com taxas de juros elevadas e sem risco na renda fixa.

O cliente precisa entender o que é o juro real e a importância do ganho acima da inflação pessoal. Uma ideia muito comum é a de que não se está correndo nenhum risco com todo o patrimônio concentrado em renda fixa, baseado no viés comportamental do Status Quo. No entanto, nesse caso se está assumindo um risco ainda maior: o de não conseguir atingir o objetivo de aposentadoria no futuro, pois todo o patrimônio acumulado será corrigido só pela inflação!

E esse é o risco que o brasileiro corre atualmente, tendo a poupança como principal destino de seus recursos. Dados do Banco Central mostram que a caderneta concentra R$ 820 bilhões de recursos dos brasileiros. Na indústria de fundos, segundo estatísticas da Anbima, 41% do patrimônio líquido de R$ 5 trilhões estava em renda fixa em outubro. De todo o patrimônio líquido dos fundos de previdência, 91% estão na categoria renda fixa.

O risco de concentrar todo o patrimônio em renda fixa é não conseguir atingir o objetivo de aposentadoria no futuro.

Na outra ponta do iceberg

Dentro do escopo do planejamento financeiro pessoal, a tomada de risco é apenas a ponta do iceberg. Tão importante quanto essa métrica é trabalhar a gestão financeira das famílias para ajudá-las a elevar sua capacidade de poupança.

O papel do profissional na vida das pessoas é primordial. Consideremos que, após todas as análises, o cliente conseguiu ter uma carteira com o risco adequado ao seu perfil e ao retorno requerido para a aposentadoria. É provável que ele precise, ainda assim, rever sua capacidade de poupança se quiser parar de trabalhar antes dos 65 anos de idade com uma renda suficiente para cobrir todas as suas necessidades.

O aumento da expectativa de vida no último século foi uma grande conquista tecnológica. Indicadores do IBGE mostram que ela atingiu 79 anos em 2017, um salto ante os 48 anos na década de 1940. Viver mais e com qualidade implica ter projeções mais conservadoras sobre qual será a renda necessária para a liberdade financeira após a aposentadoria.

O profissional, junto com o cliente, precisa considerar o aumento exponencial de custos não só com saúde, mas também com alimentação, lazer e bem-estar.

O objetivo de atingir a aposentadoria no cenário de juros reais baixos acarreta mais riscos na carteira de investimentos e também a necessidade de uma boa gestão financeira, que auxilie as pessoas a poupar mais e tornar essa reserva robusta. Um profissional especializado, com acesso a todas essas informações e olhar amplo sobre a vida do cliente, faz toda a diferença para que o plano de aposentadoria se concretize nesses novos tempos.

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