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Investimento em cenário de juros baixos

Martin Iglesias, MSc, CFP®. Gerente de Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco e Vice Presidente do Comitê de Educação para Investidores da ANBIMA.
Juliana Laham, CFP®. Head of Investment Advisory Group no Bradesco Private Bank.
Gilberto Kfouri Jr, CFA, CFP®. Head de Renda Fixa e Multimercados no BNP Paribas Asset Management Brasil.

CFP® Professional Magazine: Com a Selic em 6% ao ano e perspectiva de mais cortes, o investidor finalmente chegou à conclusão de que é preciso mudar seu comportamento em relação aos seus investimentos. O que podemos concluir a este respeito?

Martin: Quando recebi o convite para escrever este artigo veio à minha mente como o assunto de investidor em um cenário de juros baixos tem estado presente na minha mente já faz muito tempo. Pensei imediatamente na minha dissertação de mestrado onde usando as funções da teoria da perspectiva e o conceito de myopic loss aversion mergulhei na alta concentração em ativos pós fixados do investidor brasileiro. A conclusão do meu trabalho “O comportamento do investidor brasileiro na alocação de ativos” foi bastante óbvia, embora quantitativamente comprovadas, e apontava o fato de que a baixa exposição ao risco dos investidores locais não se devia a algum fenômeno comportamental ou cultural, mas simplesmente por que com o nível de juros reais praticados naquele momento (ano de 2005) a alocação ótima se dava com mais de 95% de exposição ao pós fixado.

Fato é de que nunca pensei que chegaríamos à situação de hoje, com Selic em 6% e caindo, o que vai se refletir em juros reais abaixo de 1% (após impostos). Tenho viajado bastante nos últimos dias e vejo nos investidores uma preocupação cada vez maior com os investimentos e com o que fazer para rentabilizar o portfólio. Percebo que muitos investidores desejam assumir riscos em proporções bastante superiores àqueles que assumiam até pouco tempo atrás. Nenhuma surpresa.

CFP® Professional Magazine: Quais fatores podem impactar na previsão atual de mais cortes na taxa Selic até o final do ano?

Juliana: A continuidade de cortes na Selic deve ser vista como uma resposta do Banco Central às constantes reduções nas expectativas de inflação para os próximos anos, inclusive refletidas nas metas estabelecidas pelo CMN. Podemos destacar algumas consequências importantes das diminuições da taxa básica de juros como a redução do serviço da dívida pública, o estímulo à atividade econômica e atratividade de investimentos financeiros que possuem nível de risco mais elevado. Por outro lado, o diferencial de taxa de juros com relação aos países desenvolvidos, que atualmente se encontra no menor nível histórico, pode manter o dólar mais fortalecido com relação ao real.
  


Gilberto: A continuidade das reformas no parlamento, os indicadores de atividade e inflação doméstica, além do comportamento do cenário externo, sobretudo em relação à guerra comercial entre China e Estados Unidos, podem impactar a decisão de efetuar (ou não) mais cortes na taxa básica de juros.

CFP® Professional Magazine: O que fazer com os investimentos atuais, se houver concentração em produtos pós-fixados?

Martin: Antes de dar um conselho aos investidores, costumo alinhar expectativas. Os investidores, mesmo que consigam aumentar suas rentabilidades, o farão assumindo um nível de risco maior. Vejam a equação abaixo, que nada mais é do que uma Função de Utilidade tipo Von Newman, que geralmente é usada nos modelos de alocação de carteiras tipo Markowitz:

EU = μ - 0,5 k 2

Onde:
EU é a utilidade esperada de um investimento
µ é o retorno esperado
σ é o risco, medido na forma de desvio padrão
k é Coeficiente de aversão a risco



De vez em quando gosto de pensar em equações, isso me ajuda a deixar os conceitos mais claros e principalmente a tentar atacar, na prática, os pontos que são os mais importantes no momento. No caso entendo que temos que estar particularmente atentos ao σ e ao K.

Juliana: Independentemente do nível de taxa de juros, o investidor deve sempre buscar uma carteira diversificada que se aproprie de retornos em todas as classes de ativos, não abrindo mão, portanto, de um portfólio equilibrado ao longo do tempo. Esta é a melhor maneira de obter retornos consistentes no longo prazo. A decisão de incrementar o risco do portfólio depende muito dos objetivos de cada investidor com aquele recurso e o cenário econômico à frente. No atual ambiente de taxa de juros e com a percepção de que estamos no início de um ciclo virtuoso para a economia brasileira, fundos multimercado e o mercado acionário devem ser os grandes contribuidores para a performance positiva dos portfólios nos próximos anos.A equação pode nos ajudar a entender o atual cenário: se o retorno esperado (µ) cai, a utilidade é imediatamente impactada, deixando o investidor menos satisfeito com seus investimentos. Entretanto, o que eu quero destacar é que mesmo que o investidor procure aumentar o µ, só conseguirá fazer isso aumentando o risco (σ) que aparece no segundo termo da equação, com o sinal negativo, subtraindo utilidade. Ou seja, mesmo que o investidor aumente sua rentabilidade, ele vai trabalhar com um menor nível de utilidade nos seus investimentos e esse menor nível será tanto menor em função do seu grau de conservadorismo medido pelo coeficiente k da equação.

“É preciso conhecer o histórico das gestoras, lembrando que rentabilidade passada não garante retornos futuros.”

Gilberto Kfouri Jr, CFA, CFP®

CFP® Professional Magazine: Algumas alternativas para incrementar o retorno nesse cenário são Fundos Multimercados e Ações. O que considerar antes de investir?

Martin: Pessoalmente e sem nenhuma base cientifica, gosto de classificar os riscos conforme a intensidade que eles conseguem ser enxergados pelos investidores. O risco de mercado é altamente visível e por isso muitas vezes tende a ser evitado por eles. Na minha experiência os investidores se preocupam em demasia com esse risco em detrimento dos demais.

“É preciso conhecer o histórico das gestoras, lembrando que rentabilidade passada não garante retornos futuros.”

Gilberto Kfouri Jr, CFA, CFP®

No segundo tipo de risco eu coloco tanto o risco de crédito como o de liquidez. São riscos que permanecem escondidos, latentes, até que num determinado momento algo acontece. Esse acontecimento, no caso do crédito, é um evento de não pagamento ou uma descontinuidade na percepção de risco de um título, e no caso do risco de liquidez o evento pode ser a necessidade de venda do ativo, quando em muitos casos o investidor percebe que seu ativo não vale o que ele acreditava que devia valer.

O terceiro tipo de risco é ainda mais perigoso do que o segundo, pois a percepção se dá espalhada ao longo do tempo, sem sequer um evento que o faça aparecer. Trata-se do risco oculto da perda para a inflação. Se não tomar muito cuidado, este tipo de risco corrói o poder de compra no longo prazo e de forma silenciosa, aos poucos.

Gilberto: Eu prefiro sempre a diversificação. No caso de ações a melhor alternativa é através de fundos ou fundos de fundos. No caso dos multimercados vale o mesmo critério, ou seja, um fundo de fundos ou alocar diretamente em vários gestores. Conhecer as gestoras, o histórico dos seus profissionais, suas estruturas e o histórico de rentabilidade (lembrando que rentabilidade passada não garante retornos futuros). Uma análise em períodos de estresse de mercado é muito importante.

Juliana: Para fundos multimercados e fundos de ações, é importante considerar a estratégia e DNA de investimento da casa, consistência do gestor e dos retornos apresentados, rotatividade de equipe, acompanhar as cartas mensais, verificar o comportamento destes fundos em movimentos extremos de mercado (fundos que ganham muito ou perdem muito podem assumir posições maiores de risco e não obrigatoriamente o investidor está disposto à essa oscilação).

Martin: Com os níveis de juros reais que nos acostumamos a ter, a diversificação para muitos parecia não fazer tanto sentido econômico. Agora quando olho com atenção para o σ da equação eu vejo o quanto ela passa a ter valor. É a diversificação a melhor alternativa que temos para assumir apenas os riscos que fazem sentido e valem a pena assumir. Diversifique, mas diversifique de verdade.

Imagine que desejemos assumir um determinado nível de risco, que podemos chama de σ0. Suponha que temos a opção de assumir esse nível de risco σ0 de duas formas, a primeira é através de um único investimento e a segunda através de um portfólio diversificado. Se utilizarmos um modelo de média variância simples não vai ser difícil ver que o retorno esperado do portfólio diversificado com risco σ0 é maior do que o ativo único com o mesmo nível de risco σ0. Essa constatação me faz pensar na frase da diversificação como a lógica de “não colocar todos os ovos na mesma cesta” e me fez criar minha própria frase “A diversificação é o jeito mais inteligente de assumir riscos”.

“A diversificação é o jeito mais inteligente de assumir riscos.”

Martín Iglesias, MSc, CFP®

Diversifique de forma ampla, busque ativos que não reajam da mesma forma aos acontecimentos do mercado, ou seja, com baixas correlações. Pense em pós fixados, prefixados, multimercados, ações, ativos imobiliários, investimentos no exterior, etc...

Fique muito atento ao seu perfil. O questionário de perfil de investidor não é uma mera burocracia. Ele é realmente fundamental.

Como no atual cenário a nome do jogo é diversificar para assumir riscos de forma inteligente, é preciso conhecer muito bem o perfil do investidor para não assumir riscos superiores ao tolerável. Um investidor que assume riscos superiores à sua tolerância pode assustar-se num momento de volatilidade e acabar resgatando com perdas, o que pode ser em muitos irreversível.

CFP® Professional Magazine: Falando em diversificação ampla, quais são as oportunidades e os riscos dos investimentos no exterior?

Juliana: O mercado internacional representa ampliação da diversidade de alternativas de investimentos, jurisdição e moedas que são importantíssimas fontes de retorno e diversificação de portfólios. Além disso, permite a “descorrelação” com os ativos brasileiros. Considerando o ambiente de taxas de juros mais baixas no Brasil e no mundo, investimentos e oportunidades no mercado global muito provavelmente passarão a ter um papel mais relevante nos portfólios de investidores nos próximos anos.

Gilberto: Com juros no atual patamar, fundos no exterior são alternativas obrigatórias para investidores de longo prazo. Via de regra os fundos de ações não fazem hedge cambial e o investidor incorrerá em perdas caso haja uma valorização da nossa moeda. Por outro lado, se beneficia em caso de uma desvalorização. As alternativas geralmente são em temas ou regiões.

Um outro tipo de investimento interessante são os fundos de renda fixa ou os multi-assets com hedge cambial. Esses fundos são similares aos nossos multimercados, porém com estratégias bem mais diversificadas e gestores sem o viés doméstico das casas locais. Seu objetivo é pura e simplesmente capturar o alfa gerado em fundos no exterior e adicionar ao retorno do CDI.  

Martin: O panorama dos investimentos mudou radicalmente no Brasil e de forma significativa. É importante aprender a lidar com isso para poder extrair o máximo de valor possível dos investimentos.

“É preciso conhecer o histórico das gestoras, lembrando que rentabilidade passada não garante retornos futuros.”

Gilberto Kfouri Jr, CFA, CFP®

Juliana: O mercado internacional representa ampliação da diversidade de alternativas de investimentos, jurisdição e moedas que são importantíssimas fontes de retorno e diversificação de portfólios. Além disso, permite a “descorrelação” com os ativos brasileiros. Considerando o ambiente de taxas de juros mais baixas no Brasil e no mundo, investimentos e oportunidades no mercado global muito provavelmente passarão a ter um papel mais relevante nos portfólios de investidores nos próximos anos.

Gilberto: Com juros no atual patamar, fundos no exterior são alternativas obrigatórias para investidores de longo prazo. Via de regra os fundos de ações não fazem hedge cambial e o investidor incorrerá em perdas caso haja uma valorização da nossa moeda. Por outro lado, se beneficia em caso de uma desvalorização. As alternativas geralmente são em temas ou regiões.

Um outro tipo de investimento interessante são os fundos de renda fixa ou os multi-assets com hedge cambial. Esses fundos são similares aos nossos multimercados, porém com estratégias bem mais diversificadas e gestores sem o viés doméstico das casas locais. Seu objetivo é pura e simplesmente capturar o alfa gerado em fundos no exterior e adicionar ao retorno do CDI.  

Martin: O panorama dos investimentos mudou radicalmente no Brasil e de forma significativa. É importante aprender a lidar com isso para poder extrair o máximo de valor possível dos investimentos.

“É preciso conhecer o histórico das gestoras, lembrando que rentabilidade passada não garante retornos futuros.”

Gilberto Kfouri Jr, CFA, CFP®

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